Por que o tempo de jogo não deve ser o regulador de jogos digitais

 

Olá, seja bem vindo(a) ao Que jogo é esse? !!

Você que tem um filho ou filha que adora pegar seu celular para jogar (ou mesmo já tem seu próprio tablet), você que é avô ou avó de crianças que ficam grudadas na tela da TV ou de games portáteis, você que é professor ou professora desta geração conectada nas mais novas e diversas tecnologias, este é o seu blog! 

Meu nome é Pollyana Notargiacomo, sou Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação e Pós-Doutora em Engenharia Elétrica, trabalho como professora universitária e como pesquisadora na área de games e de tecnologia educacional (se quiser, lá no Sobre tem mais informações sobre as minhas atividades).

O blog Que jogo é esse? foi concebido para discutir este universo, trazer informações, dicas, conceitos, dados, pesquisas, etc. e contribuir para que pais, responsáveis e profissionais que lidam com crianças que interagem com jogos digitais possam não só compreender este universo como também fazer uso dele a favor do desenvolvimento cognitivo, do aprimoramento de habilidades e da aprendizagem e aquisição de conhecimentos nas mais variadas áreas.

Assim, para começar, teremos uma série de cinco posts sobre os maiores mitos envolvendo jogos digitais e crianças ou adolescentes. Este primeiro post trata do mito do tempo de jogo:

Para que a criança não fique viciada e não deixe de realizar outras atividades é necessário fixar o tempo de uso dos jogos digitais.

Neste contexto, um dialogo comum entre crianças e/ou adolescentes e adultos é:

— Posso jogar videogame?
— Pode jogar meia hora (ou pode jogar uma hora) e depois vai desligar o aparelho.

Ampulheta joystickSem duvida há muitas atividades ao livre (outdoor) — como jogar bola, andar de bicicleta, nadar, correr, pular amarelinha, brincar de esconde esconde e pega-pega, etc. —, ou internas (indoor) — como xadrez, jogos de tabuleiro, leitura, dentre outras —, que são fundamentais para a socialização e desenvolvimento das crianças (não só do ponto de vista cognitivo como da motricidade). É importante e fundamental, sim, que haja um equilíbrio entre as atividades e que as crianças não fiquem exclusivamente nos games, mas isso não significa que se deva estabelecer um horário fixo de uso, mas sim uma etapa. Me explico. 

Jogar constitui uma atividade que envolve objetivos a serem atingidos, estes mediados por tarefas a serem cumpridas. Assim, geralmente cada fase (cada nível do jogo, também denominado de level) é concebida para ter começo, meio e fim. Ou seja, são estabelecidas metas, que implicam na realização de atividades para a  obtenção de resultados (troféus, mudança de nível, aquisição de itens para o inventário do jogo, etc.). Muitas vezes, dependendo do tipo de game, essa finalização também permite assistir ao que chamamos de cutscene, um vídeo que dá sequência à narrativa, à história do jogo. 

Quando se estabelece um horário fixo significa que a criança (ou adolescente) deve desligar o jogo digital independentemente da conclusão da atividade. 

Mas o que isso quer dizer?

Isso significa que a mensagem que a criança ou adolescente está recebendo (e sendo “acostumada”) é a de abandonar atividades sem, muitas vezes, concluí-las. Além disso, se o tempo termina no meio do jogo, o nível é abandonado e a criança na próxima vez vai recomeçar e talvez isso se torne um ciclo em que ela fica recorrentemente, resultando em falta de motivação ou desinteresse. 

Outro exemplo, talvez mais palpável, é a leitura. Há pais ou responsáveis que, por exemplo, determinam um tempo de leitura para as crianças desenvolverem este hábito, só que as crianças se acostumam a olhar no relógio e se o tempo acabou elas colocam o marcador e não terminam um capítulo; implicando em retomar o mesmo no dia seguinte ou, pior, seguir em frente ainda que sem contexto, ocasionando desinteresse e transformando a leitura numa tarefa mecânica e sem graça. Não estou dizendo que o hábito da leitura não é importante, é fundamental; minha sugestão é que se leia um ou mais capítulos completos para ter dimensão da narrativa, ainda que isso também se reflita num período temporal estimado para os pais ou responsáveis.

Então qual seria uma saída possível?

Uma possibilidade é combinar com a criança ou adolescente (dependendo do tipo de game) o que ela poderá fazer: se ela pode jogar uma, duas ou mais fases. O mais importante é que ela possa ter a noção de sequência, de princípio, meio e fim, de ter percorrido uma etapa completa. A implicação prática disso é que algumas vezes a criança ou adolescente terminará mais rápido do que o adulto imagina ou algumas vezes demandará mais tempo. O importante é ter a visão do todo, a compreensão do que estava envolvido e do que foi necessário fazer para concluir com êxito. E ainda há a mensagem de que ao iniciar uma determinada atividade vale a pena concluí-la.

Inclusive, atualmente jogos digitais mais longos (com níveis que duram em média uma, duas ou mais horas) apresentam alguns pontos de checagem para salvar o jogo numa determinada etapa, o que constitui uma alternativa também, dado que permite concluir de maneira integral um bloco do jogo.

American Academy of Pediatrics

De qualquer forma, você pode ainda argumentar comigo: “mas os médicos dizem que há um tempo determinado de jogo de acordo com a faixa etária”. De fato há, sim, uma recomendação da American Academy of Pediatrics (American Academy of Pediatrics Announces New Recommendations for Children’s Media Useem relação ao tempo de uso, trabalho que foi revisado recentemente. Assim, a dica seria verificar games que estejam de acordo com as diretrizes médicas e também dos pais ou responsáveis em relação ao tempo aceitável, bem como permitam à criança ou ao adolescente a realização de uma etapa completa. Outra possibilidade é o game como uma atividade familiar, porque não aproveitar para jogar em família? Diversão e interação! Aliás, muitos pais nem sabem o que os filhos jogam, quem sabe escolher games conjuntamente não seja uma excelente oportunidade de resolver desafios, de conversar e trocar ideias!

A sociedade tecnológica e conectada está diante dos nossos olhos, as três últimas gerações já nasceram num cenário em que Internet e games são elementos integrantes, portanto cabe a nós contribuir para o uso consciente de dispositivos tecnológicos.

Por isso o Que jogo é esse? constitui um espaço de discussão e geração de valor, para aproximar diferentes gerações e trazer conteúdos, dicas, pesquisas e muito mais!

Semanalmente, toda segunda-feira, será lançado um novo conteúdo, portanto, use o RSS Feed abaixo para receber as novidades. 

Se tiver alguma dúvida ou sugestão de pauta, me escreva em contato@quejogoeesse.info, participe, terei o maior prazer em trazer as discussões aqui no blog e contribuir para um uso consciente de jogos digitais por crianças e adolescentes. 

Se conhece outras pessoas que poderiam se beneficiar desta leitura, compartilhe!

Um bom início de semana e até semana que vem!

 

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July 22, 2017

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  • Excelente texto, idéia fantástica de Blog. Conte comigo pra qq coisa. Este texto vou compartilhar com país que ainda não entenderam que o único problema com os jogos são exatamente o desconhecimento destes com o que significam.

    • Obrigada pelo comentário e feedback! Sem dúvida os games podem colaborar no ambiente escolar e familiar e esta é a proposta deste site! Fique à vontade para mandar também sugestões de pauta.

  • Adorei o texto, apesar da filhota ainda não jogar esse tipo de jogo de fases, vou ficar atenta pra essa questão de iniciar e terminar o q começou, obgda amiga Doutora. Passarei a seguir seu blog sempre. Gratidão

    • Olá Van, obrigada pelo comentário! Pois é, mesmo os games que não possuam fases têm uma sequência até sua conclusão, então vale trabalhar com sua pequena para que ela tenha um tempo de uso com você acompanhando como é esse processo para poder deliberar o horário aproximado. 😉

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